Na última semana estive em Ouro Preto. Desde meus passeios por suas intermináveis ladeiras, já vinha pensando no que escrever sobre a cidade. Nada mais encantador para um historiador que se ocupa do século XVIII do que uma cidade do século XVIII.
Simpática rua de Ouro Preto
Apesar de ter como dona do meu coração Paraty, Ouro Preto supera nossa pérola colonial fluminense em termos de tamanho: a cidade é tão grande que as pessoas realmente vivem em Ouro Preto. O que quero dizer é que a cidade não vive só do turismo, não. Pelas ruas, encontramos consultórios médicos, mercearias, lojas etc. Tudo isso entrecortado por prédios históricos e placas que indicam marcos importantes da cidade, como a casa de Tiradentes (na verdade a casa mesmo foi demolida quando de sua condenação) e a possível casa do Aleijadinho.
Em primeiro plano (verde), a possível casa de Aleijadinho
As igrejas são um capítulo à parte. Visitei oito nos dois dias em que fiquei na cidade. Eu poderia ficar aqui falando e falando da sedução do ouro da Matriz do Pilar e da igreja de Nossa Senhora do Carmo, mas, por incrível que pareça, a que mais me encantou foi a de Nossa Senhora do Rosário, construída por uma irmandade de negros e mulatos no século XVIII. Apesar de seu exterior causar impacto, seu interior é dos mais simples, com ênfase não no ouro, mas nas pinturas. Uma pena não poder tirar fotos...
Igreja Nª. Srª. do RosárioAliás, apesar de todo o encanto de Ouro Preto e de ter ficado muito impressionado como estudante paga meia entrada em tudo por lá, achei um pouco retrógrada a proibição de tirar fotos dentro das igrejas, mesmo sem o uso de flash (que danifica imagens e pinturas). Ouvi alguém comentando que era por motivos de segurança. Sinceramente não entendo. Qualquer catálogo de fotos da cidade, revista de viagens ou uma singela busca no Google mostra fotos dos interiores das igrejas. Se fosse assim, fotos seriam também proibidas na igreja da Candelária e na riquíssima e barroquíssima igreja de Nossa Senhora de Mont Serrat (Mosteiro de São Bento), ambas aqui no Rio de Janeiro.
Igreja Nª. Srª. da ConceiçãoDe todas essas igrejas, a única em que foram permitidas as fotos -- indiscutível e compreensivelmente sem flash -- foi a igreja São Francisco de Paula, o mais recente de todos os templos católicos de Ouro Preto. Sua construção iniciou-se em 1804, época em que o ouro já escasseava. Daí que seu interior não seja dos mais ricos. Ainda assim, consegue ser mais rica que a belíssima igreja do Rosário. De seu terraço é possível ter uma das mais belas vistas de Ouro Preto: de lá a cidade é emoldurada pela serra e pelo verde. Vale muito a pena conferir!
Igreja S. Francisco de Paula
Altar-mór de S. Francisco de Paula e paisagem do segundo andarA Casa da Ópera, primeiro teatro das Américas (data da década de 1750), é um capítulo à parte na cidade. Ainda em funcionamento, com as funções de Teatro Municipal, faz com que qualquer um consiga se remeter ao fervor cultural da antiga Vila Rica, no século XVIII. Falando em fervor cultural, olhando o tamanho da cidade, pareceu-me que a Ouro Preto do século XVIII conseguia ser maior que o Rio de Janeiro da mesma época. Não conheço estudo nenhum sobre isso, mas tive essa impressão.
Casa da ÓperaTambém estive em Mariana nesses três dias de incursão pelo século XVIII mineiro. A cidade tem seu Centro Histórico, mas, comparada com Ouro Preto, é -- perdoem-me a aparente contradição -- incomparavelmente menor. Ouro Preto vive na cidade histórica, diferentemente de Paraty, por exemplo, de literalmente cercou seu Centro Histórico (carros não entram). A cidade de Mariana, por ser menor em relação a Ouro Preto, cresceu ao redor do que hoje chamamos de Centro Histórico. Por mais que o Centro não seja fechado como em Paraty, tive a impressão de que a diferenciação entre Centro Histórico e o resto da cidade é muito maior do que em Ouro Preto.
O destaque em Mariana fica por conta da praça que é rodeada pela Casa da Câmara e Cadeia, que ainda briga a Câmara Municipal, pelas igrejas de Nossa Senhora do Carmo e de São Francisco de Assis e pelo Pelourinho em frente a esta última. Nela funcionava o antigo centro de poder durante o período colonial.
Igrejas de S. Francisco e de Nª. Srª. do Carmo com Pelourinho à frente e Antiga Casa da Câmara e Cadeia e atual Câmara MunicipalCom visita guiada (gratuita), o passeio pela Casa da Câmara valeu muito a pena. No andar térreo funcionava a antiga cadeia, e ainda possui suas três celas (uma para homens brancos, uma para mulheres brancas e a outra para mulatos e negros de ambos os sexos). Chamou-me a atenção uma capelinha que fica aos fundos do prédio. Nossa guia nos explicou que aquela capela era dedicada à devoção dos presos. Tanto que de todas as celas é possível ver a capela.
Cela da Cadeia. A construção ao fundo correspondia ao fogão e à privada.
Vista da capela a partir da cela.No segundo piso, enfeitam as paredes do saguão principal quadros do rei D. João V e sua mulher, a rainha D. Maria Ana de Áustria, quem serviu de inspiração para que D. João V desse o nome de Mariana à cidade, e quadros de seu filho D. José I e de sua neta D. Maria I (a Louca). De um lado, o plenário, ainda em funcionamento e do outro uma sala com mobília datada do Império do Brasil, como é possível ver através do brasão imperial gravado em sua madeira.
Vista do segundo piso da Câmara para a igreja de S. FranciscoDas três igrejas em que estive em Mariana, duas delas permitem que seus interiores sejam fotografados (Carmo e São Francisco). A catedral de Mariana, igreja de Nossa Senhora da Assunção, que abriga o famoso e tão falado órgão cedido por D. João V, para minha decepção não permite fotografias internas. Confesso que fiquei um pouco irritado com isso. Não sei para que tanta propaganda do órgão se ele não pode ser fotografado... Como consolo, comprei um cartão postal com uma imagem dele... Mas quem gosta de fotografar sabe que não é a mesma coisa...
Altar-mór rococó e lustre de cristal da igreja de S. Francisco de Assis
Lustre de cristal da igreja de S. Francisco de AssisApesar do ostentado orgulho dos marianenses de terem abrigado primeira capital de Minas, de ser o primeiro bispado mineiro, de ter tido a primeira casa com dois pavimentos do país e de ser a primeira cidade planejada (acho que de Minas também), sem fazer pouco da cidade, que tem os seus encantos, não recomendo a ninguém que queira conhecer Mariana e Ouro Preto que comece por esta última. A sensação do colonial, do histórico, é muito mais presente e forte em Ouro Preto, de forma que começar um passeio por ela e terminar em Mariana poderia gerar um certo anticlímax. Sugestão? Comesse por Mariana e depois vá a Ouro Preto.
Outra simpática ladeira de Ouro Preto com seu casario de épocaEste foi um post muito superficial. Apesar de vir pensando desde Minas sobre o que escrever a respeito dessa viagem, confesso que não me senti muito disposto a fazer um longo relato de tudo. Não vou me ocupar aqui dos museus, dos chafarizes, do artesanato que me deixou maluco, de como pedra-sabão é barato e frágil (uma pecinha de uma escultura que comprei lá quebrou ao longo da viagem... =/), dos interiores das igrejas, dos assustadores santos de roca (imagens de santos com cabelos humanos e roupas de verdade) que me fizeram ter pesadelos na primeira noite, dos tantos cemitérios pelos quais temos que passar a todo momento em Ouro Preto (cada igreja tem o seu), nem da corrida que eu levei ao passar sozinho, à noite, ao lado do cemitério da igreja de São José, que mais parecia uma construção abandonada de filme de terror do que uma patrimônio histórico digno da conservação que visivelmente não recebe (não é a única precisando de reparos, mas a em mais precário estado). Pra completar o cenário, a lâmpada do poste estava queimada. Nunca vou me esquecer daquela igreja e de como andei rápido, quase correndo, por ali. =P
Vista geral de Ouro PretoSe Paraty reina como a cidade colonial do meu coração, Ouro Preto já me pegou de jeito também. Não há como não se render ao encanto de séculos de história passeando lado a lado com você por ladeiras e becos. Para que Ouro Preto fosse perfeita, faltou apenas o mar... Mas paciência. Deus deu, em troca, o primor da arquitetura mais bela. Não se pode ter tudo, né?
Até a próxima!